quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Católico Verdadeiro e o Herege – por São Vicente de Lerins

De tudo o que dizemos, parece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e a Igreja, corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica – nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia – mas que, desprezando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente o que a Igreja sempre e universalmente acreditou.

Sabe que toda doutrina nova e nunca antes ouvida, insinuada por uma só pessoa, fora ou contra a doutrina comum dos fiéis, não tem nada a ver com a religião, e que constitui, antes, uma tentação, instruído especialmente pelas palavras do Apóstolo Paulo: “Pois é conveniente que até haja heresias, para que também os que são de uma virtude provada sejam manifestados entre vós”. Como se dissesse: Deus não extirpa imediatamente os autores de heresias para que os que são de uma virtude provada se manifestem, isto é, para mostrar até que ponto se é tenaz, fiel e constante no amor à fé católica.

São Vicente de Lerins, na obra Comonitório

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Igreja, guardiã fiel do depósito

Mas é proveitoso que examinemos com maior diligência essa frase do Apóstolo: “Ó Timóteo, guarda o depósito (da fé), evitando as novidades profanas de palavras”. Este grito é o grito de alguém que sabe e ama. Previa os erros que iam surgir e se doía disso enormemente.

Quem é hoje Timóteo senão a Igreja universal em geral, e de modo particular o corpo dos bispos, os quais, em primeiro lugar, devem ter um conhecimento puro da religião cristã e transmiti-lo aos demais?

E que quer dizer “guarda o depósito”? “Está atento, lhe diz, aos ladrões e aos inimigos; para que não suceda que enquanto todos dormem, venham às escondidas a semear o joio em meio do bom grão do trigo que o Filho do homem semeou em seu campo”.

“Guarda o depósito”. Mas, o que é um depósito? O depósito é o que te foi confiado, não encontrado por ti, tu o recebeste, não o encontraste com tuas próprias forças. Não é o fruto de teu talento, mas da doutrina; não está reservado para um uso privado, mas, sim, pertence a uma tradição pública. Não saiu de ti, veio a ti. A seu respeito tu não podes comportar-te como se fosses seu autor, mas simplesmente como seu guardião. Não foste tu quem o iniciou: tu é que és seu discípulo. Não te cabe dirigi-lo: teu dever é segui-lo.


“Guarda o depósito”, quer dizer, conserva inviolado e sem mancha o talento da fé católica. O que te foi confiado é o que deves guardar junto a ti e transmitir. Recebeste ouro; devolve, pois, ouro. Não posso admitir que substitua uma coisa por outra. Não, tu não podes de maneira despudorada substituir o ouro pelo chumbo, ou tratar de enganar dando bronze em lugar de metal precioso. Quero ouro puro, e não algo que só tenha sua aparência.

Ó Timóteo! Ó sacerdote! Ó intérprete das Escrituras! Ó doutor da Igreja! Se a graça divina te deu o talento por engenho, experiência, doutrina, deves ser o Beseleel do Tabernáculo espiritual. Trabalha as pedras preciosas do dogma divino, reúne-as fielmente, adorna-as com sabedoria, acrescenta-lhes esplendor, graça, beleza: que tuas explicações façam que se compreenda com maior clareza o que já se cria de maneira muito obscura. Que as gerações futuras se congratulem de ter compreendido por tua mediação o que seus pais veneravam sem compreender.

Entretanto, hás de estar atento para ensinar somente o que aprendeste: não suceda que por buscar dizer a doutrina de sempre de uma maneira nova, acabes por dizer também coisas novas.




São Vicente de Lérins, na obra Comonitório

sábado, 7 de setembro de 2013

O Estado tem deveres em relação ao Nosso Senhor e à religião?

Do mesmo modo que todos os homens têm o dever de honrar a Deus, seu Criador, e por isso de abraçar a Verdadeira Fé, logo que a conheçam (sua salvação pessoal depende da aceitação ou da recusa de Jesus Cristo), o Estado também. “A felicidade do Estado não decorre de outra fonte que a dos indivíduos, visto que uma cidade não é outra coisa senão um conjunto de particulares vivendo em harmonia.

A sociedade política deve honrar a Deus publicamente? Não basta que o façam os indivíduos?

Leão XIII explica: “Os homens unidos pelos laços de uma sociedade comum, não dependem menos de Deus do que quando tomados isoladamente. Tanto como o indivíduo, a sociedade deve dar graças a Deus, de Quem obteve sua existência (...) É por isso que, do mesmo modo que não é permitido a ninguém  negligenciar seus deveres para com Deus – e que o maior de todos os deveres é o de abraçar a verdadeira religião (não aquela que cada um prefira, mas a que Deus prescreveu e a que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas) – as sociedades políticas não podem, sem crime, se conduzir como se Deus não existisse de nenhum modo, ou dispensar a religião como inútil, ou admitir uma conforme seu bel-prazer.

Para honrar a Deus publicamente, a sociedade temporal deve necessariamente se submeter à Religião Católica?

Jesus Cristo – que é o único Mediador entre os homens e Deus – nunca é facultativo. E a Igreja Católica, que é a única Igreja de Cristo, muito menos. Leão XIII ensina: “Honrando a Divindade, as sociedades políticas devem seguir estritamente as regras e o modo segundo os quais  Deus, ele mesmo, declarou querer ser honrado.

Mas o Estado é competente em matéria religiosa?

O Estado não é competente para legislar a seu alvitre em matéria religiosa. Mas o é  para reconhecer a Verdadeira Religião a partir de seus sinais de verdade, e para se submeter a esta. Leão XIII afirma: “pois é necessário professar uma religião na sociedade, é necessário professar aquela que é a única verdadeira e que se reconhece facilmente, sobretudo nos países católicos, pelos sinais de verdade, cujo caráter reluzente leva consigo mesma. Essa religião, os chefes de Estado devem portanto conservar e proteger.
O Estado tem outros deveres religiosos além do culto público a Deus?
Sim. O Estado deve, sempre permanecendo em sua própria seara, favorecer a salvação eterna de seus cidadãos.

Não é dever da Igreja – e não do Estado – fazer com que se atinja a Felicidade Eterna?

Deus  quis criar uma sociedade propriamente religiosa (a Santa Igreja), distinta da sociedade temporal. O homem deve, portanto, pertencer a essas duas direções de uma vez. Ora, a vida temporal lhe é dada para preparar a vida eterna. O Estado, cujo domínio próprio é o temporal, não pode, pois, organizá-lo independentemente do seu fim último. Não está diretamente encarregado da Felicidade Eterna, mas deve contribuir para ela, indiretamente. Se a negligenciar, abandona a parte mais importante do bem comum. Tal é o ensinamento dos Padres da Igreja, de Santo Tomás e dos papas.
Fonte: Catecismo Católico da Crise na Igreja